

Muitos colegas nos têm contactado manifestando algumas dificuldades em distinguir complemento de modificador de nome, em particular o modificador de nome restritivo.
Conviria antes de mais referir que o complemento de nome não faz parte do PPEB nem das Metas Curriculares de Português (MCP), ao contrário do modificador de nome (restritivo e apositivo), mas é certamente lecionado no Ensino Secundário, a cujos colegas nos dirigimos também neste post.
1. O modificador de nome não é selecionado pelo nome, quer seja restritivo quer apositivo. No primeiro caso, a referência restringe-se àquele nome; no segundo, o modificador é meramente explicativo, daí aparecer isolado por uma ou por duas vírgulas, consoante o lugar em que se encontre na frase.
A função sintática de modificador de nome restritivo é normalmente desempenhada por grupos adjetivais (GAdj), preposicionais (GPrep) e por orações subordinadas adjetivas relativas restritivas (OSARR); a do modificador apositivo é desempenhada tipicamente por grupos nominais (GN) e por orações subordinadas adjetivas relativas explicativas (OSARE).
Vejamos alguns exemplos:
| Modificador de nome restritivo | 1. Gosto de livros volumosos. (A referência restringe-se aos livros com esta característica.) |
A função sintática de modificador é desempenhada por um GAdj |
| 2. Aquela rapariga de casaco escuro vive na minha rua. (A referência restringe-se àquela rapariga, a mais nenhuma outra.) |
A função sintática de modificador é desempenhada por um GPrep | |
| 3. Traz-me o livro que está em cima da mesa. (A referência restringe-se a esse livro, a mais nenhum outro.) |
A função sintática de modificador é desempenhada por uma OSARR | |
| Modificador de nome apositivo | 1. D. Afonso Henriques, o conquistador, foi o primeiro rei de Portugal. (A referência faz-se sem qualquer restrição ao nome; o modificador apenas introduz uma explicação adicional.) |
A função sintática de modificador é desempenhada por um GN |
| 2. Estes livros, que nunca ninguém lê, deveriam estar na última prateleira. (A referência faz-se sem qualquer restrição ao nome; o modificador apenas introduz uma explicação adicional.) |
A função sintática de modificador é desempenhada por uma OSARE |
2. O complemento distingue-se do modificador por ser selecionado pelo nome. Há nomes (como há verbos, também) cuja referência não fica completa sem um complemento.
A melhor forma de identificar um complemento de nome é verificar se o verbo correspondente (verificar conhecimentos sobre derivação não afixal) seleciona complementos.
Vejamos os exemplos:
1. a participação foi elevada. (participar em) – participação em quê?
2. a compra foi feita em boa altura. (comprar alguma coisa) compra de quê?
3. a entrega decorreu numa bonita cerimónia. (entregar alguma coisa) entrega de quê?
4. a constatação foi feita pelo lesado. (constatar alguma coisa) constatação de quê?
5. a pesca faz-se ao largo dos Açores. (pescar alguma coisa) pesca de quê?
Como se pode constatar, qualquer um dos nomes destacados seleciona um complemento (normalmente precedido da preposição «de»).
Basta colocá-lo para que a frase fique completa:
1. a participação na votação foi elevada.
2. a compra dos livros foi feita em boa altura.
3. a entrega dos prémios decorreu numa bonita cerimónia.
4. a constatação de que o carro lhe foi roubado foi feita pelo lesado.
5. a pesca da baleia (=baleeira) faz-se ao largo dos Açores.
Os complementos de nome são normalmente desempenhados por grupos preposicionais (exemplos 1 a 3) ou orações (exemplo 4), raramente por adjetivos (exemplo 5).
3. Há outros nomes que indicam a parte de um todo e que selecionam complementos.
Vejam-se os exemplos seguintes:
1. Comi agora um bocado (de quê?) de pão.
2. O meu computador custou um terço (de quê?) do teu.
3. Apenas comi uma parte (de quê?) do bolo.
4. Já li centenas (de quê?) de livros.
5. Comprei uma fração (de quê?) da lotaria.
Os GPrep destacados a negro são os complementos dos nomes que os antecedem (a que se referem). Como se pode ver, nenhum dos nomes a verde teria o seu sentido completo se esses GPrep não lhes fossem acrescentados.
4. O complemento de nome não se pode confundir com o modificador de nome restritivo (MNR). É verdade que nenhum deles pode ser separado por vírgulas, mas enquanto o complemento é de colocação obrigatória, o MNR é de colocação facultativa. Comparem-se os exemplos:
| Frases com complementos de nome ou modificadores de nome restritivos | Frases sem os complementos /e modificadores | Domínios de predicação completos? |
| 1. A entrega dos prémios decorreu numa bonita cerimónia. (complemento) | 1. A entrega decorreu numa bonita cerimónia. (complemento) | Não. |
| 2. Comi agora um bocado de bolo. (complemento) | 2. Comi agora um bocado. (complemento) | Não. |
| 3. Gosto de livros volumosos. (MNR) | 3. Gosto de livros. (MNR) | Sim. |
| 4. Aquela rapariga de casaco escuro vive na minha rua. (MNR) | 4. Aquela rapariga vive na minha rua. (MNR) | Sim. |