


O advérbio reúne-se numa classe heterogénea de palavras que suscita muitas vezes interrogações e dúvidas quanto à sua classificação.
O DT elenca 9 tipos de advérbios – de frase, de predicado, conectivo, de afirmação, de negação, de quantidade e grau, de inclusão e de exclusão, interrogativo, relativo – referindo que desempenham maioritariamente funções sintáticas de modificador (de frase e de GV), complemento oblíquo e predicativo do sujeito. Alguns podem ainda ser modificadores de grupos nominais, preposicionais e adverbiais.
Já a nomenclatura gramatical portuguesa (NGP)1 procede à classificação dos advérbios em função dos seus valores semânticos, listando-os como advérbios de lugar, de tempo, de modo, de intensidade, de afirmação, de negação, de dúvida, de ordem, de exclusão e de designação.
Ao comparar o DT e a nomenclatura gramatical portuguesa (sabendo-se que o DT é o único referencial terminológico que os professores do EB e Secundário têm de seguir) vemos que as diferenças residem sobretudo na classificação dos advérbios, já que no que respeita à função, tanto DT como NGP distinguem o advérbio interrogativo, embora não o relativo nem o conectivo.
De referir, no entanto, que a NGP contemplava ainda a categoria de advérbio de oração, à semelhança do atual advérbio de frase, consagrado no DT, o que não deixa de ser curioso.
Tendo o DT como referência, podemos traçar o quadro seguinte dos advérbios:
Advérbio |
Valores semânticos |
Função sintática |
Exemplos |
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Advérbio de frase |
Dúvida |
Modificador de frase |
Talvez a escola esteja bem apetrechada. |
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Advérbio de predicado |
Tempo |
Modificador (de GV) |
Ontem toda a gente foi ver o jogo. (MGV) |
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Advérbio conectivo |
Ordem, ordenação ou sequência |
Não tem função sintática. |
Começou com Camões e, seguidamente, dedicou-se à leitura de Eça. |
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Advérbio de afirmação |
Afirmação |
Modificador de grupo nominal, preposicional ou adverbial |
Eles não venderam a casa, mas sim a garagem. (MGN) |
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Advérbio de negação |
Negação |
Modificador (de GV) |
Ele não trabalha. (MGV) |
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Advérbio de quantidade e grau |
Quantidade e grau |
Modificador (de GV) Modificador de outros grupos frásicos |
Eles trabalham muito. (MGV) |
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Advérbio de inclusão e de exclusão |
Inclusão e de exclusão |
Modificador (de GV), (de GN), (de GAdj), (de GPrep) e (de GAdv) |
Só o João adormeceu. (MGN) |
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Advérbio interrogativo |
Tempo |
Identificar o constituinte interrogado numa construção interrogativa |
Quando vais a Lisboa? (tempo) |
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Advérbio relativo |
Lugar |
Inicia orações relativas |
A casa onde vivo fica numa colina. (lugar) |
Deste quadro ficam de fora o advérbio de dúvida e o de designação. Se para o primeiro não se colocam problemas de maior, – uma vez que se enquadra nos advérbios de frase que exprimem uma atitude do falante relativamente ao que diz – já quanto ao segundo, a sua classificação como advérbio não é consensual.
Em 1.º lugar, o termo «advérbio de designação» (sic, nas MCP) não consta no DT e muito dificilmente se poderá enquadrar nas categorias aí definidas.
Em 2.º lugar, as suas características semânticas e comportamento sintático afastam-no dos demais advérbios. Isso mesmo afirma Evanildo Bechara ao escrever que «tais palavras não devem ser incluídas entre os advérbios. Não modificam o verbo, nem o adjetivo, nem outro advérbio. São por vezes de classificação extremamente difícil. Por isso, na análise, convém dizer apenas: «palavra ou locução denotadora de exclusão, de realce, de retificação, etc.»2. No mesmo sentido se pronunciam Celso Cunha e Lindley Cintra na sua Nova gramática do português contemporâneo ao considerarem a palavra «eis» não um advérbio, mas uma «palavra denotativa3». Mesmo o professor João Costa, sem apontar para uma classificação diferente, refere a peculiaridade desta palavra ao afirmar que «não surge em contextos frásicos, antes introduz apenas um sintagma nominal [GN], podendo este ser substituído por uma oração subordinada completiva4» .
Estas objeções deveriam ter sido conselho bastante para não incluir nas MCP uma palavra pertencente a uma categoria inexistente no referencial terminológico, que todos nós temos de seguir (DT), e tornar obrigatória a sua aprendizagem.
Sem referência nas gramáticas didáticas atuais, os professores atuais terão de recuar aos anos 60 e 70 para a encontrarem, numa altura em que vigorava a nomenclatura gramatical portuguesa revogada, como se sabe, para dar lugar à TLEBS e sua posterior revisão de que resultou o DT.
Converse aqui connosco sobre este item gramatical e acrescente valor a este tópico.
Manuel Vieira
1 Instituída pela portaria n.º 22 664 (http://www.portaldalinguaportuguesa.org/?action=nomenclatura)
2 BECHARA, Evanildo, Moderna Gramática Portuguesa (Rio de Janeiro, Editora Lucerna, 2002, p. 291)
3 CUNHA, Celso e CINTRA, Lindley, Nova gramática do português contemporâneo, edições Sá da Costa, Lisboa, 1984, p. 548
4 O que é um Advérbio?, Lisboa, Edições Colibri / Associação de Professores de Português, 2001, pp. 65/66
Cara colega, agradecemos os comentários feitos.
Sobre «quando» e «como» enquanto advérbios relativos há sempre alguma controvérsia, dado o conhecimento normalmente estabelecido de que são ou advérbios interrogativos (em posição inicial ou final de frase) ou conjunções. Se o problema não se coloca com «onde» (o único exemplo que o DT forne (...)
[Comentário completo]Caro Ulisses,
[Comentário completo]É com grande satisfação que o voltamos a encontrar neste espaço. Disponibilizamos-lhe e aos restantes professores interessados a tabela de sistematização sobre o “Advérbio” aqui e na Área de Recursos.
Esperamos sempre pela sua participação.
Sa (...)