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Como usar os inspetores de circunstâncias
Inserido em 2013-04-18  |  Adicionar Comentário
 

Temos divulgado neste “manual de filosofia 2.0” algumas das vantagens do uso da lógica no ensino da filosofia.

Ao longo da história da filosofia, a lógica tem sido usada como ferramenta fundamental que nos auxilia a distinguir argumentos válidos de inválidos.

Referem-me com frequência que reduzir a filosofia à lógica retira àquela parte essencial do seu papel. 
                                                                                          

 

Acontece que não se reduz em momento algum a filosofia à lógica, mas analisa-se logicamente os argumentos, o que deve ser natural em grande parte do trabalho filosófico.

Como já foi explicado em posts anteriores, a lógica não capta, por si só, todas as subtilezas da argumentação, mas é uma ferramenta preciosa quando bem aplicada à argumentação.

É o caso dos inspetores de circunstâncias. Como o nome sugere, um inspetor de circunstâncias vai inspecionar as condições de verdade de um dado argumento dedutivo. A regra da validade dedutiva indica que um argumento é válido se for impossível uma circunstância em que a ou as premissas seja(m) verdadeira(s) e a conclusão falsa.

Tomemos um exemplo prático de um argumento:

Exemplo 1

A relva é amarela e as nuvens cor-de-rosa
Logo, a relva é amarela


Este argumento tem uma premissa apenas e uma conclusão. Sabemos que a premissa é falsa, a conclusão também e o argumento é válido. Intuitivamente sem recurso a um inspetor compreendemos a validade do argumento.

Exemplo 2

Se Deus existe, a vida faz sentido
A vida faz sentido
Logo, Deus existe


Que dizer deste argumento? Em princípio um crente aceitará a primeira premissa, mesmo que não seja estritamente necessário que a aceite para justificar a sua crença. Será o argumento dedutivamente válido? Tudo o que há a fazer é inspecionar as circunstâncias em que ocorre verdade e falsidade nas premissas do argumento. Temos de testar pelo inspetor todas as circunstâncias possíveis.

Utilizando o dicionário, obtemos:

Deus existe – p
A vida faz sentido – q

(O dicionário consiste em traduzir cada uma das diferentes proposições que compõem o argumento em variáveis proposicionais, normalmente expressas em
p, q, r.)


De seguida, formalizamos o argumento:

Se p então q
q
Logo, p


O argumento na tabela, se usarmos corretamente simbologia lógica convencionada, deverá constar assim:


p → q, q ╞ p

(O símbolo ╞  significa “logo”, é indicador de conclusão e designa-se martelo semântico.)


Para p e q existem quatro variações de verdade. Ou ambos são falsos, ou ambos são verdadeiros. Ou p é verdadeiro e q falso, ou o contrário. Existem mais? Não.

Fazemos então uma tabela onde dispomos estas variações:


Verdade para p e verdade para q

1.ª premissa

2.ª premissa

Conclusão

 

 

 

p q

Se p então q

q

Logo, p

1.ª circunstância
2.ª circunstância
3.ª circunstância
4.ª circunstância

V V
V F
F V
F F

V
F
V
V

V
F
V
F

V
V
F
F


O que é que observamos no inspetor? Chama-se inspetor de circunstâncias, já que a tarefa é mesmo a de inspecionar no argumento o que acontece no caso de verdade ou no caso de falsidade. Assim, na primeira circunstância, em que p é verdadeiro e q é verdadeiro, a primeira premissa é verdadeira, a segunda também e a conclusão também. Ou seja, passa o teste da validade. Lemos então assim: se for verdade que Deus existe e se for verdade que a vida faz sentido, então também é verdade que Deus existe na conclusão e o argumento é dedutivamente válido.

Se olharmos para a 3.ª circunstância, o que é que acontece? Se for falso que Deus existe (p) mas verdadeiro que a vida tem sentido (q); e se afirmarmos na premissa a consequente (q) e na conclusão a antecedente (p), então, as premissas do argumento são ambas verdadeiras e a conclusão falsa.

Ora, se atendermos à regra da validade dedutiva, verificamos que esta é violada.

Falta ainda explicar um passo. Como é que sabemos os valores de verdade nas colunas das premissas e conclusão? Pelas regras simples da lógica proposicional. P e q isoladamente são proposições simples (melhor, são classes vazias que representam simbolicamente classes vazias de coisas ou estados do mundo). P e q podem ser conectados logicamente. Há quatro modos principais de conectar proposições simples, tornando-as compostas: a condicional, a bicondicional, a conjunção e a disjunção. E também podemos negar as proposições (simples ou compostas), mas isso não irei adiantar para já, uma vez que o que pretendo mostrar é a utilidade dos inspetores.

Exemplos de proposições compostas:

Condicional
Bicondicional
Conjunção
Disjunção

Se Deus existe, a vida faz sentido
Deus existe se e somente se a vida faz sentido
Deus existe e a vida faz sentido
Deus existe ou a vida faz sentido


As frases apresentadas nesta grelha são modelos, pois depende muito de como falamos ou como escrevemos quando filosofamos. Tudo o que há a fazer é estudar pacientemente modelos mais típicos de apresentação das proposições na linguagem natural.

Conclusão: os inspetores são uma boa ferramenta para avaliar muitos argumentos. E se for ensinada de início, pode-se recorrer a esta ferramenta todo o ano. Isto se o manual que usamos a aplicar também.

Escreverei mais adiante um post a explicar modos eficazes de trabalhar com proposições.


Rolando Almeida

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