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Reconstituição ativa de argumentos aplicada à ética utilitarista
Inserido em 2013-02-05  |  Adicionar Comentário

 

 

Se a filosofia é uma atividade crítica, então para se discutir mais facilmente as teorias e argumentos da filosofia é conveniente fazer a reconstituição dos argumentos que surgem naturalmente ao longo de um texto, para os tornar mais explícitos e os formular na sua representação canónica. Isto é muito útil para se poder discutir proficientemente os argumentos, uma vez que fica claro quais são as premissas e qual é a conclusão. Para tal, é necessário que o aluno saiba identificar as premissas, as conclusões e os seus indicadores, os entimemas, eliminar o ruído (que não contribui em nada para o argumento e para a sua validade), etc. Sem esta reconstituição ativa de argumentos pode-se correr o risco de não se discutir proficuamente os argumentos, ou de cair num mero comentário de textos desprovido do tal exame crítico tão característico da filosofia. Vamos a um exemplo.

Um dos tópicos de Filosofia do 10.º ano é o problema da fundamentação da moral. Existem duas teorias rivais que tentam resolver este problema: a ética utilitarista de Stuart Mill e a ética deontológica de Kant.

Para o utilitarismo de Mill, o bem último é a felicidade, e o que faz uma ação ser correta é produzir a maior felicidade para o maior número. Para o deontologismo kantiano, o bem último é a vontade boa e o que faz uma ação ser correta é cumprir o imperativo categórico.


Ao abordar estas teorias, é importante ensinar noções básicas, como o facto de o utilitarismo ser uma teoria teleológica e consequencialista, enquanto que a deontologia de Kant é não-consequencialista. O que interessa aqui não é apresentar a psicologia ou a biografia dos filósofos, mas sim as ideias.


No entanto, não chega expor as teorias dizendo simplesmente que para o utilitarismo uma ação é moralmente correta quando promove imparcialmente a maior felicidade ou bem-estar geral. Em filosofia, é sempre preciso fundamentar e apresentar os vários argumentos que sustentam as teorias. Então, por que razão se deve promover a felicidade geral? No quarto capítulo do livro Utilitarismo, Stuart Mill apresenta o seu argumento:

A única prova que pode dar-se de que um objeto é visível é que as pessoas de facto o veem. A única prova de que um som é audível é que as pessoas o ouvem. E assim sucessivamente para as outras fontes da nossa experiência. Penso que, de modo semelhante, a única prova que é possível apresentar de que algo é desejável é as pessoas desejarem-no de facto. Se o fim que a doutrina utilitarista propõe para si mesma não fosse, em teoria e na prática, reconhecido como um fim, nada poderia alguma vez convencer alguém de que o era. Nenhuma razão pode ser avançada para explicar por que razão a felicidade geral é desejável, exceto que cada pessoa, na medida em que pensa poder alcançar a sua própria felicidade, deseja-a. No entanto, sendo isto um facto, temos não apenas todas as provas que o caso permite, como também todas quantas podem exigir-se para provar que a felicidade é um bem: que a felicidade de cada pessoa é um bem para essa pessoa, e a felicidade geral é, portanto, um bem para o conjunto de todas as pessoas. A felicidade conquistou o título de um dos fins da conduta e, consequentemente, um dos critérios da moralidade. 
                                                         Stuart Mill (2005), Utilitarismo, trad. Azevedo Gonçalves. Lisboa: Gradiva, p. 90


Para este argumento ficar mais claro e para se poder debatê-lo melhor, é necessário fazer a tal reconstituição ativa identificando claramente as premissas e conclusões.

Para ajudar os alunos nesta tarefa pode-se recorrer a livros como Just the Arguments: 100 of the Most Important Arguments in Western Philosophy, de Michael Bruce e Steven Barbone .


Neste livro propõe-se, entre outras, a seguinte reconstituição do argumento de Stuart Mill:



(P1) A única prova de que um objeto visível existe é que as pessoas de facto o veem e não há razão para pensar que estão enganadas.

(P2)
A única prova de que um som audível existe é que as pessoas de facto o ouvem e não há razão para pensar que estão enganadas.

(C1) Assim, a única prova de que algo desejável existe é que as pessoas de facto a desejam e não há razão para pensar que estão enganadas [Inferência analógica de P1 e P2].

(P3) Cada pessoa de facto deseja a felicidade para si mesma e não há razão para pensar que está errada.

(C2) Deste modo, a felicidade de cada pessoa é desejável para si mesma [Consequência semântica de C1 e P3].

(P4) Se a felicidade de cada pessoa é desejável para si mesma, então a felicidade é algo desejável em si.

(P5) Se a felicidade é algo desejável em si, então a felicidade geral é desejável.

(C3) Portanto, se a felicidade de cada pessoa é desejável para si mesma, então a felicidade geral é desejável [Silogismo hipotético de P4 e P5].

(C4) Logo, a felicidade geral é desejável [Modus ponens de C2 e C3].


 


   Michael Bruce, Steven Barbone (ed.) (2011), Just the Arguments: 
   100 of the Most Important Arguments in Western Philosophy.
   UK, Oxford: Wiley-Blackwell. (O capítulo 57 é sobre o argumento
   utilitarista e encontra-se nas páginas 223-228.)

Os alunos estarão, a partir daqui, em condições para discutir o argumento utilitarista. O argumento parece válido, mas será sólido? Ou seja, serão todas as suas premissas verdadeiras? Será que se conseguiu provar efetivamente que devemos promover a felicidade geral?


Domingos Faria

 

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