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É moralmente errado dizer às crianças que o Pai Natal existe?
Inserido em 2012-12-18  |  Adicionar Comentário

Lamento, o Pai Natal não existe! Porém, comummente os pais ensinam aos filhos que ele existe, alertando-os para se comportarem bem ao longo de todo o ano a fim de serem presenteados pelo Pai Natal. Mas será correto ensinar às crianças que o Pai Natal existe, que viaja num trenó puxado por renas voadoras com o saco cheio presentes? Que argumentos se podem avançar a favor e contra isto?

Por um lado, pode-se argumentar que a crença no Pai Natal é inócua. Não é como a crença do proprietário de navios de William Clifford, que enviou para o mar um navio em mau estado com emigrantes, convencido de que o navio estava em bom estado; mais tarde, o navio acabou por naufragar em pleno mar sem deixar rasto. Uma crença como esta leva a ações nocivas. Porém, a crença no Pai Natal é inofensiva e, com toda a imaginação suscitada por este mito, até pode estimular o desenvolvimento da criatividade da criança. 

Além disso, parece que as consequências de acreditar no Pai Natal são globalmente boas para as crianças, gerando uma imensa alegria e entusiasmo – como se pode constatar ao escreverem as cartas ao Pai Natal, ao abordarem o assunto do Natal ou ao receberem os presentes. Logo, parece que não é errado falar às crianças da existência do Pai Natal e de todo o mito que o acompanha.

 


Por outro lado, pode-se argumentar que é bom que os filhos tenham confiança na palavra dos pais. É a partir destas relações de confiança que os filhos aprendem e se desenvolvem. Se os filhos descobrirem que os pais estão a enganá-los com a crença da existência do Pai Natal, isso pode colocar em causa a relação de confiança: afinal quando é que os filhos devem dar crédito ao testemunho dos pais?! Portanto, para não haver risco de perda de confiança, é melhor não ensinar a crença do Pai Natal.

Do mesmo modo, incutir crenças falsas às crianças silenciando ou contornando as suas dúvidas é errado (como por exemplo a criança questionar “Como entra o Pai Natal nas casas que não têm chaminé?” ou “As renas do Pai Natal voam mesmo?”, ao que os pais respondem condescendentemente com algo como “Isso é magia!”). Isto é errado, uma vez que promove maus hábitos mentais, enfraquecendo o hábito de exigir indícios a favor das nossas crenças. Assim, há o perigo da credulidade, do perder o hábito de testar as coisas e de as investigar.

São estes argumentos plausíveis ou sofrem de alguma fragilidade? Quais são os melhores argumentos? Que mais argumentos se podem avançar a favor e contra a transmissão da crença da existência do Pai Natal às crianças? Afinal, será ou não moralmente errado dizer às crianças que o Pai Natal existe?

Este pode ser um interessante exercício de debate a realizar com os nossos alunos de filosofia, logo no início do segundo período, reservando parte da primeira aula.


Domingos Faria

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As comunidades com uma matriz de religiosidade cristã católica só recentemente, e por questões comerciais, inseriram o papai noel como uma parte das suas tradições. Quem tenha crescido em ambientes onde essa religiosidade, de que falo, fosse uma prática corrente o que existia era o menino Jesus e este é que recompensava pensamentos, atitudes e comportamentos. Enquadrado neste contexto o dar prendinhas tinha significado, pois a figura fazia parte da constelação de coisas importantes para a comunidade e, nesse contexto, não se discutia a questão da existência do menino, visto ele ser um postulado existencial para a comunidade e para cada um, enquanto parte integrante desta. Posta assim a questão temos que a mesma adquire contornos distintos, visto que o dar presentes era prerrogativa de um existente real, ainda que de fé, acriticamente aceite certamente. A questão de afirmar que o menino recompensa, dando prendas, nunca era vista como uma questão de faltar à verdade ou o seu inverso e de poder perder a confiança daqueles a quem se moralizava para a vida comunitária, antes pelo contrário; todos na comunidade reforçavam a crença e a questão da mentira nunca surgia; esta surge se perspetivarmos papai noel pois, como a fé não é trabalhada na e para a vida comunitária, aparece a possibilidade de a qualquer momento surgir o reconhecimento da inexistência da figura premiadora e aí sim poderemos colocar a questão da criação de posições de desconfiança (sabe-se que as relações se enraízam e fortificam aqui) em relação ao que diz a figura tutelar.