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A Lógica no Programa de Filosofia
Inserido em 2012-12-12  |  Adicionar Comentário

No post sobre a possibilidade de reformar o Programa de Filosofia (ver aqui) levantei o problema sobre se vale a pena continuar com um programa aberto aos conteúdos. Desta vez, quero fazer uma proposta de reforma. Ainda que seja um pequeno contributo, coloco à discussão dos colegas professores esta minha primeira proposta.
 
Como sabemos, o módulo inicial do Programa de 10.º ano inclui um pequeno ponto sobre a dimensão discursiva do trabalho filosófico (ponto 1.3. do ponto 1, Módulo Inicial do Programa homologado). Alguns manuais abordam já algumas noções introdutórias de Lógica, mas uma unidade destinada exclusivamente ao estudo da Lógica só aparece no programa do 11.º ano.

O ensino da Lógica ainda provoca alguma discussão entre os professores de Filosofia.

1. De um lado, os professores que defendem que a Lógica é uma disciplina demasiado mecanicista e que poucos avanços proporciona ao aluno para aprender Filosofia.

2. Do outro, os professores que defendem que é impossível ensinar a pensar filosoficamente sem antes instruir o aluno no raciocínio lógico que só o estudo da Lógica desenvolve de modo sistemático.

Defendo a posição 2. A Lógica funciona na Filosofia como a caixa de ferramentas do filósofo. Quando o estudante de Filosofia abre a sua caixa de ferramentas, o que pode encontrar? Uma caixa bem apetrechada incluirá noções operacionais de lógica de análise de argumentos, entre as principais:
Distinção verdade – validade 
Premissas e conclusão de argumentos
Composição de um argumento
Formalização de argumentos
Conceitos
Argumentos dedutivos e não dedutivos.
Argumentos válidos, sólidos e cogentes.

Estas ferramentas funcionam nas aulas de Filosofia como o microscópio funciona na aula de Biologia. Uma objeção frequente a este ensino da lógica é que o estudo da lógica não capta todas as subtilezas da argumentação. Aceitemos de bom grado essa objeção pois parece-nos verdadeira. Contudo, o que achamos é que a objeção não constitui uma condição suficiente para não se ensinar estas noções logo no 10.º ano.

Senão, voltemos à comparação com o ensino da Biologia. Do mesmo modo, um professor de Biologia pode alegar que o microscópio não permite ver a totalidade dos microrganismos. Mas estou em crer que nenhum professor de Biologia defende que não se deva usar essa ferramenta, essencial para fazer o estudante compreender a vida microrgânica. Outra objeção que os defensores do não ensino da Lógica têm de enfrentar é a que indica que, não sendo a Lógica uma ferramenta que capte todas as subtilezas da argumentação, de que técnica dispõem então os filósofos que permita captar melhor os argumentos e o que devemos ensinar em alternativa à Lógica?

A minha proposta vai ainda mais longe. Como qualquer ferramenta ao serviço de um saber, também a Lógica tem sofrido, ao longo da história, diversas modificações. Defendo que não há boas razões para ensinar a Lógica silogística em opção à Lógica proposicional clássica. E isto por uma razão: é que a Lógica silogística dificilmente será aplicada ao longo do Programa da disciplina. Assim, é natural que o estudante de Filosofia se questione para que serve ter aprendido a silogística? Pelo contrário, muitas matérias da Lógica proposicional clássica, como os inspetores de circunstâncias ou as derivações, podem perfeitamente ser usadas em todo o Programa da disciplina.

Imagine-se que o professor de Biologia somente no 11.º ano aborda o microscópio. Ensina aos alunos como se afina o microscópio, como se deve limpar, etc., mas nunca o usa para observar o comportamento de microrganismos. Nesse caso, dificilmente o jovem estudante chega a compre

der para que serve o microscópio. É quase certo que fica com uma ideia vaga de como se deve limpar a ferramenta, mas não a sabe usar. E o mesmo se aplica à Lógica: podemos fazer nas aulas dezenas de testes aos silogismos, mas dificilmente a Lógica terá utilidade se não for aplicada aos argumentos dos filósofos. Ensinamos Lógica para aprender a discutir os argumentos dos filósofos, para ensinar filosofia e não somente para ensinar lógica.

Esta é também uma das deficiências do ensino da Lógica, pois raramente ela é usada para pensar, quando a razão da sua existência é exactamente essa: raciocinar sobre problemas com maior clareza e rigor. A Lógica silogística raramente se aplica à maioria dos problemas filosóficos. Permite, sem dúvida captar alguns aspectos da argumentação, mas muito poucos se comparada com a Lógica proposicional clássica. Isto acontece porque raramente pensamos com argumentos sob a forma de um silogismo.

São estas razões que aqui exponho de modo breve que me fazem pensar que não faz sentido o ensino da Lógica a meio do percurso, no 11.º ano, mas, antes no 10.º ano, na primeira unidade. Mas deixo o problema em discussão, pois é uma ideia que tem de ser afinada no Programa de Filosofia do Ensino Secundário.


Rolando Almeida
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